AMEFRICANIDADE: s.f. Criado pela intelectual brasileira Lélia Gonzalez, esse termo destaca a identidade e a experiência comum dos povos das Américas. O conceito une “América” e “África” para valorizar a cultura afrodescendente e denunciar o racismo estrutural nas sociedades amefricanas. Gonzalez propõe a Amefricanidade como uma forma de resistência, pertencimento e valorização das raízes africanas nas culturas latino-americanas, rompendo com visões eurocêntricas e colonialistas.
1. Amefricanidade na obra de Lélia González
A amefricanidade é uma categoria sócio-cultural elaborada pela filósofa, antropóloga, geógrafa, historiadora e ativista política brasileira Lélia Gonzalez (1935-1994). O conceito é engendrado em oposição especialmente a categorias norte-americanas como “afro-american” e “african american”, sendo essas consideradas etnocêntricas, inseridas em uma lógica imperialista e consideravelmente limitantes pela autora. Nesse contexto, o conceito proposto por Lélia tem por objetivo marcar uma posição mais democrática e menos territorialista, linguística ou ideológica a respeito das elaborações raciais. Trata-se, ainda, de um conceito mais eficiente e sofisticado para o entendimento da identidade afrodescendente em todo continente americano, uma vez que incorpora a análise do processo histórico de sua formação, considerando a intensa dinâmica cultural assinalada pela adaptação, resistência, reinterpretação e criação de novas formas de vida mais afrocentradas. Para a pensadora, a amefricanidade é, também, uma categoria de análise que permite uma leitura da América como um todo, sem distinções fronteiriças, estando intimamente ligada com conceitos como pan-africanismo, negritude, “blackness” e “afrocentricity”, como a diáspora que precisa ser conhecida e estudada. A partir das categorias que a amefricanidade mobiliza é possível afirmar, a despeito das particularidades locais, que o sistema comum de dominação estabelecido na América pelos europeus foi o do racismo, em suas variadas manifestações.
Amefricanidade é um conceito que possui a capacidade de interceptar e expor o racismo que se oculta por meio de um sistema de dominação estruturado por procedimentos administrativos, organizados ao longo dos séculos, que conseguiram, apesar da propagação social do racismo, orquestrar a ideia de integração racial totalmente pacífica e democrática. Para Lélia Gonzalez, o modo como as sociedades da América Latina se organizaram administrativamente, a partir do modelo hierárquico ibérico, promoveu uma classificação racial e sexual e conseguiu estruturar modelos de sociedades tão estratificados que não foi necessário o recurso à segregação aberta, como expressa nos projetos coloniais de Holanda e Inglaterra.
2. Experiência histórica e cultura:
Amefricanidade é, em relação à questão da experiência histórica e cultural, a diáspora que precisa ser conhecida, estudada, divulgada e ensinada. Este é um conceito que versa sobre a emancipação dos grupos oprimidos das Américas à medida que é uma posição a respeito das elaborações raciais menos territorialista, linguística ou ideológica. Em relação à questão racial, a amefricanidade possui afinidade teórica com conceitos como o pan-africanismo. É a partir dessas categorias que se pode afirmar que o sistema de dominação estabelecido na América pelos colonizadores foi o racismo.
3. Aspecto recentes na língua:
A mulher negra tem uma centralidade na obra da autora. Precisamos compreender isso, para entender a questão da língua presente categoria amefricanidade. Conforme Gonzalez escreve, na sociedade brasileira a mulher negra está caracterizada por dois papéis: doméstica e mulata. A mulata configuraria a forma sofisticada de reificação da mulher negra e contribuiria com o mito da democracia racial. Para a arquitetura da ideologia oficial, reprime-se as fantasias, oculta-se os desejos e através de muitas outras violências funda-se a tal civilização cuja integração de raças e interesses se deram de forma muito harmoniosa. Como destaca Gonzalez, na construção dessa ideologia, figuras como a Mãe Preta e o Pai João são utilizadas como “exemplos da integração e harmonia das raças no Brasil”. No entanto, a filósofa chama a atenção para a “resistência passiva”: na formação da nação, o inconsciente paulatinamente vai minando a ordem estabelecida, e a mãe preta, mucama de outrora, passa a ter a centralidade na formação dos valores e das crenças do povo. A Mãe Preta, enquanto sujeito suposto saber por instaurar o sujeito na linguagem, é a responsável pela africanização do português — tornando-o "pretuguês”. Para Lélia Gonzalez a cultura brasileira é eminentemente negra. É a mãe, no caso do Brasil, a mãe preta, que instaura a linguagem no sujeito forjando a língua do território.
4. Democracia e amefricanidade:
Há vínculos profundos entre Democracia e amefricanidade: amefricanidade é um referencial teórico forjado a partir de referenciais, experiências e saberes coletivos, o que justifica a rejeição das categorias estadunidenses por parte de Lélia Gonzalez, categorias que não dialogam com a realidade vivida pelos povos de todo continente das Américas. Como afirma a autora, citando Molefi K. Asante: “Uma ideologia de libertação deve encontrar sua experiência em nós mesmos; ela não pode ser externa a nós e imposta por outros que não nós próprios; deve ser derivada da nossa experiência histórica e cultural particular.”[1]. A amefricanidade, nesse sentido, configura-se como um dispositivo fundamental para a escrita de uma história afro-americana, feminina e democrática.
5. Referências
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
Editores[2]: Bruno Guedes Ribeiro (nºusp: 10694608); Charles Roberto Silva(nºusp: 2201957); José Pedro Vaiser Malfate (nºusp: 8043163); Juan Ignácio Gomez Martinez (nºusp: 1546830); Julia Fernandes de Magalhães (nºusp:15585046); Rodrigo de Almeida Silva (n°usp: 14616510); Rodrigo Leandro Tavares (nºusp: 11767879); Victor Sousa Santos (nºusp: 12694178); Vitor Hugo Antonio de Aquino (n°usp: 14753052).
[1] Molefi K. Asante, Afrocentricity , p. 31 apud Gonzalez, Lélia, “Categoria político cultural de amefricanidade”, Por uma feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020, p.137.
[2] Os nomes dos editores estão organizados apenas por ordem alfabética, de modo que sua disposição não expressa maior ou menor grau de participação na elaboração do projeto bem como não registra a ordem de edições do documento.