A Fenomenologia do Espírito, de Hegel, desenvolve o que poderíamos chamar de uma narrativa histórica da consciência, narrativa esta que pode ser a de uma consciência individual, mas também a história da consciência humana como um todo, e seu desenvolvimento ao longo do tempo. O ponto de partida seria justamente a consciência de uma criança ou de um animal: um estágio primordial de contato com a realidade, que somente conta com os sentidos e com o que “imediatamente se apresenta”.
Ou seja, neste estágio, o Isto, ou o objeto que se nos apresenta, é tomado pela consciência como plenamente presente e assimilável, como um puro ser. No entanto, qualquer questionamento acerca desse objeto que parece se apresentar “por inteiro” na imediatez, logo mostra que esta aparência encobre determinações múltiplas: o objeto não é simplesmente aquilo que tomamos como sendo algo em si. Portanto, aquilo que apontamos e definimos como Isto, no instante seguinte já não é mais o Isto que vimos inicialmente. Ele mostra ter determinações que o nosso apontar não contava.
Isso ocorre através da linguagem: qualquer tentativa de definir o objeto vai acarretar na multiplicidade de suas determinações, e vai portanto denunciar sua própria insuficiência. Neste sentido, o Eu que se aproxima deste objeto passa ele mesmo por uma transformação: se o seu apontar não é capaz de capturar o objeto, é porque o Eu e o objeto não possuem uma relação imediata que inicialmente se supunha. Essa relação é mediada pelas múltiplas determinações, ou seja, pelas muitas características que compõem aquele momento/objeto apontado.
O Eu só é capaz de distinguir tais características porque é ele mesmo um resultado de múltiplas determinações: somente através das diversas ferramentas de sua percepção é que os diversos aspectos do objeto se lhe fazem presentes. Deste modo, o percurso que se toma a partir desta constatação é espelhado do objeto ao sujeito: ambos são tirados para fora do imediato que pareciam ocupar de forma plena, e ambos passam por uma espécie de desconstrução, na qual são mediados pelas categorias universais, ou seja, as categorias usadas para determinar todos os objetos. E assim chegamos ao limite da certeza sensível, onde ela cessa, pois já estamos em outro estágio de nosso contato com a realidade: a percepção