A dialética em Hegel

Hegel retoma o conceito de dialética, presente na filosofia desde a antiguidade como a arte da discussão, operando uma mudança radical na sua concepção. Se, antes, a contradição encerrava a discussão como um ponto de esgotamento e refutação direta, agora a contradição é centralizada no movimento da dialética como elemento impulsionador da efetivação do conhecimento e do espírito. A dialética, em Hegel, é a superação da contradição como uma impossibilidade e a afirmação dela enquanto motor do movimento do espírito – e não enquanto uma violação do princípio lógico da não-contradição

Para superar o subjetivismo acusado em Kant, Hegel toma a própria filosofia como a realização de um conceito de dialética, isso porque a filosofia lida com o que é e não é ao mesmo tempo, com o ser que se desenvolve historicamente. Conhecer, portanto, exige a retirada no sujeito do “afundamento no sensível, no vulgar e no singular” (Hegel, 2003, p.31), e realizar uma efetividade do conceito que eleve a filosofia à condição de ciência. Para superar a distância introduzida por Kant entre o entendimento do sujeito e a verdade da coisa, Hegel defende que as categorias do entendimento não são fixas, mas são desenvolvidas dialeticamente até o absoluto. O verdadeiro, portando, é o sujeito nos eu vir-a-ser, efetivado no movimento dialético.

Assim, a dialética hegeliana é um movimento do ser descrito como um processo que se realiza efetivamente sob a forma da contradição como negatividade, o qual deve ser tomado como método para o estabelecimento do conhecimento verdadeiro e científico. Hegel descreve o dialético como o princípio de toda a realidade em que a limitação do imanente e das determinações são ultrapassadas e exposta como é, em sua negação (Hegel, 1995).

Por isso a dialética é método do conhecimento científico. No movimento dialético, uma representação tenta se realizar, mas acaba produzindo o seu contrário, de modo que destrói a representação do princípio. O saber busca se afirmar de modo pleno, mas revela, através da sua insuficiência interna, aquilo que o nega e o conduz a uma forma mais elevada, contendo a própria contradição que o destruiu. No livro sobre a Lógica, Hegel (2017) afirma que a filosofia deve se colocar do ponto de vista do absoluto, mas que isso não significa apreendê-lo completamente. O saber filosófico se situa dentro da realidade, portanto torna impossível qualquer pretensão de apreendê-la absolutamente. A verdade não é estática, não está pronta para ser apreendida por nós, mas se desenvolve dialética e historicamente. Isso significa que ao tentar conferir realidade a um conceito, a identidade suposta nele é destruída no processo e, ao ser destruída, conduz a um segundo processo que é o retorno a si, integrando no conceito aquilo que o negou anteriormente. O que parecia negar o conceito na verdade o conserva e o eleva, fazendo-o surgir em outro patamar de maior complexidade.

Ao contrário do que acontece na concepção de dialética como arte retórica, a contradição na dialética hegeliana não anula a representação, mas a atualiza de modo que a aproxima do verdadeiro.

Ao mesmo tempo em que é um movimento do saber, que realiza um conceito, é também um movimento da consciência. É a consciência, enquanto manifestação do espírito enquanto algo concreto, que exercita em si mesma o movimento dialético. O espírito, substância absoluta, é a meta, ou o resultado, do movimento de efetivação da consciência (Hegel, 2017)

Deste modo, o processo dialético é o movimento do Espírito, a expressão da totalidade do conceito que tenta realizar-se ao dirigir-se para o absoluto. Esse movimento tem como motor a operação da negatividade que suprime, conserva e eleva a representação ao retornar a si mesma em um nível mais elevado.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Hegel, G. W. F. Ciência da lógica: 1. A doutrina do Ser. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.

Hegel, G. W. F. Fenomenologia do Espírito. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.

Hegel, G. W. F. Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio: 1830. São Paulo: Loyola, 1995.