Espírito: De acordo com "Dicionário Hegel", de Michael Inwood, em alemão, a palavra Geist tem relação etimológica com "fantasma", originalmente significou "emoção, excitação", mas seu significado corresponde a "espírito". A palavra recebeu influência, com a cristandade, do latim spiritus e do grego pneuma ("ar, sopro, espírito") e nous ("mente, intelecto"). Por último, teve influência do francês esprit, com a qual adquiriu as conotações de "vivacidade", "perspicácia" e "gênio". Geist, portanto, apresenta uma gama de significados, que incluem o aspecto não-material do homem, a terceira pessoa da Trindade, vitalidade, disposição, mente e atitude mental.
Em Hegel, a "Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Epítome - Volume 1" (2019) contém a filosofia do espírito, de forma a caracterizá-lo como a mente humana e seus produtos e o divide em três categorias: espíritos subjetivo, objetivo e absoluto. O primeiro está na relação a si mesmo e comporta as experiências individuais e psicológicas, o segundo incorpora o espírito no mundo, no qual a liberdade é necessidade presente e, por último, o espírito absoluto é o essente em si e para si, é a resolução dialética dos subjetivo e objetivo em uma produção eterna de verdade absoluta. Na "Fenomenologia do Espírito" (2008), o espírito é tratado em relação à consciência e sua jornada da certeza sensível, percepção, entendimento até a consciência de si, o saber absoluto dado numa relação dialética de negatividade em que o outro torna-se igual a si, isto é, o sujeito e objeto se equivalem e o espírito conhece a si mesmo. Além disso, há três formas desse "espírito absoluto", infinito: arte, religião e filosofia. Em seus "Cursos de Estética I" (2015), Hegel trata desta primeira figura do espírito absoluto ao colocar a "filosofia da bela arte" como estruturante do belo, que é o primeiro momento da consciência de si do espírito absoluto. Em relação à religião, Hegel coloca o "espírito absoluto" como tendo um matiz teológico, o que significa que, o espírito que é para o espírito tem caráter divino, é Deus, é a autoconsciência de Deus que entra em contraste com a ideia lógica e de natureza. Na "Introdução à História da Filosofia" (1974), por último, Hegel coloca que o espírito se manisfesta na História, de forma a existir uma progressão histórica que acompanha a progressão dos espíritos de acordo com o ambiente e tempo ao qual estão inseridos. A História, portanto, é um desenvolvimento racional, pois a ascensão e queda das nações são governadas por um espírito singular.
Ainda de acordo com Inwood, Weltgeist é usualmente tratado como "espírito objetivo", aquele que está inserido nas instituições do direito, mas que também é, sob movimento dialético, responsável pelo desenvolvimento da arte, religião e filosofia, e, dessa forma, do espírito absoluto. Por outro lado, o Volksgeist significa "espírito de um/o povo" e tem semelhança com o espírito objetivo, mas inclui a noção de contribuição de um determinado povo em sua constituição, isto é, o espírito do mundo realiza-se num determinado povo. Hegel também menciona um Geist der Zeit ("espírito da época, do tempo"), que determina que a vida social de uma época compartilha um espírito comum. Por último, diz-se que aos espíritos objetivo e absoluto faltam a unidade da "mente" subjetiva, cuja conotação não pode ser excluída dos principais usos de Geist de Hegel pois seus usos estão sistematizados em relação e seu Geist ativo é o subjetivo, que é tanto "mente" quanto "espírito". Assim, uma vez que é atividade, e verdadeiramente infinito, não se distingue claramente do finito, isto é, Geist não simplesmente transcende os fenômenos do mundo, a asserção de que Geist é o absoluto não significa que tudo é mental, mas que o sistema unificado de estruturas racionais que formam seu núcleo subjetivo é imanente na natureza e no desenvolvimento do próprio Geist e, dessa forma, o espírito/mente "ultrapassa" o que lhe é diferente através de suas atividades cognitivas e práticas.
Referências Bibliográficas
HEGEL. Georg. Cursos de Estética I. São Paulo: EDUSP, 2015.
HEGEL, Georg. Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Epítome - Vol. 1. [s.l.] Leya, 2019.
HEGEL, Georg; MENESES, Paulo. Fenomenologia do espírito. Petrópolis: Vozes, 2008.
HEGEL, Georg. Introdução à História da Filosofia. São Paulo: Abril Cultural, 1974.
INWOOD, Michael. Dicionário Hegel (Dicionário de Filósofos). Rio de Janeiro: Zahar, 1997.