fenomenologia (Phanomenologie): em sentido amplo, uma primeira aproximação do termo fenomenologia leva à sua definição como ciência dos fenômenos. Seus componentes, logos e phainomenon, comportam múltiplas significações. Pode-se considerar logos, em Hegel, em seu sentidos clássico de "ciência" (teoria, razão, etc.), desde que por isso entenda-se ciência em referência à proposta do sistema e ao como ele se estrutura; e fenômeno como aparência/aparecimento, mas sem as conotações de algo meramente ilusório ou de algo simplesmente "perceptível", em sentido kantiano[I]. O âmbito fenomenal é o do aparecer para a consciência - tal âmbito deve ser pensado como um emergir do saber que não está de saída já pronto, como uma espécie de solo em que a consciência movimenta-se dialeticamente em direção a si mesma para tornar-se consciência-de-si e, neste percurso, produz a si mesma e, paralelamente, para si mesma as categorias de pensamento para apreensão do conceito. Isto é, ela se efetiva ou, em outras palavras, liberta-se do saber fenomenal e conquista o saber absoluto. Logo, a ciência já é um aparecer, mas aquilo que aparece é "trabalhado" na e pela consciência.
Sendo assim, fenomenologia é fenomenologia do espírito. O percurso da consciência em direção ao absoluto que já está lá desde sempre, mas ela ainda não sabe de si mesma enquanto tal. Desta maneira, é o caminho de "depuração" da consciência, o trajeto de formação [Bildung] através diversas figuras em que a tensão característica da própria consciência, a objetividade e subjetividade, a contradição, a negação, o em-si e para-si, é a cada vez reelaborada. Depuração pois o saber fenomenal nas figuras iniciais da certeza sensível, percepção e entendimento ainda opera, de maneiras distintas e em graus diferentes, com a separação entre subjetividade e objetividade, ainda não é um todo. Somente a própria fenomenologia do espírito, isto é, a experiência da consciência, fornece o "substrato" para se concretizar o processo de tornar-se consciência-de-si, já que o saber absoluto não é algo que pode simplesmente ser posto previamente antes de ser conquistado.
O campo fenomenal da experiência da consciência engloba tanto o aparecer dos "objetos", como o do reconhecimento de outras consciências e o domínio social-histórico. Trata-se de um saber distinto do saber absoluto, mas que é necessário para se chegar no absoluto, isto é, para se preparar a possibilidade de apreensão do conceito. Neste sentido, a fenomenologia é o início do sistema das ciências, uma primeira conquista e elaboração das categorias do pensamento que a consciência-de-si, no seu efetivar-se, é capaz de apreender e elaborar posteriormente de maneira pura, como vê-se no prefácio da fenomenologia do espírito, editado após elaboração da obra. Lá, já "percorrido o caminho", Hegel pode discorrer sobre o espírito que, sabendo de si como absoluto, preparou a possibilidade do começo do sistema da ciência: "no seu novo elemento, e no sentido que resultou do processo" (§12). O conteúdo da filosofia é a efetividade, sua tarefa apreensão do conceito. Diz Hegel, na Enciclopédia, vol 1, §6,"chamamos de experiência a consciência mais próxima desse conteúdo". Desta maneira, a fenomenologia faz o caminho do fenomenal ao absoluto partindo do "mais próximo" do ser humano, do senso comum; da consciência natural e da cisão entre subjetividade e objetividade.
Na medida em que o conceito não é algo que se olha de fora como uma coisa separada, mas que se apreende no desenvolvimento concreto, a fenomenologia é a própria exposição de um saber (ciência) que aparece no campo fenomenal das representações e que, enquanto tal, ainda não é saber absoluto. Trata-se de uma espécie de "propedêutica" ou primeira "etapa" da filosofia, no sentido do primeiro mostrar do "todo" já sempre aí e que é elaborado por diversos "prismas" e a cada vez em todas as obras de Hegel.
Bibliografia consultada
HEGEL, G .F .W. Fenomenologia do Espírito. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
______ Enciclopédia das Ciências Filosóficas. São Paulo: Loyola, 1995.
INWOOD, Michael. Dicionário Hegel. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997.
[I] Verificar o Dicionário Hegel, elaborado por Inwood, para uma descrição detalhada do emprego hegeliano do termo "fenômeno" e sua raíz etimológica alemã nos termos Schein e Erscheinung.