​​​​​​​Metafísica

Metafísica – Segundo Frederick Beiser, no seu artigo intitulado Hegel e o problema da metafísica, o emprego dessa noção possui uma conotação negativa, sobretudo devido à crítica endereçada por Kant à tradição racionalista, cujas principais figuras são Descartes, Leibniz e Wolff. No entanto, como assinala Beiser, a filosofia de Hegel pode ser considerada como « metafísica », já que sua tarefa é o « conhecimento racional do absoluto » – trata-se, em termos kantianos, de uma empreitada de cunho dogmático, uma vez que rejeita o imperativo crítico, baseado no qual a metafísica deve assentar-se numa crítica do conhecimento, isto é, numa reflexão epistemológica e transcendental, empenhada em desvelar as condições de possibilidade da experiência e os limites da razão, tal como foi plasmada na opus magnum de Kant, a Crítica da razão pura. Em oposição ao filósofo de Köninsberg, portanto, Hegel pretende reabilitar a metafísica, contudo sem aceitar a anterioridade de uma postura crítica, atacada por Hegel já na introdução da Fenomenologia do Espírito. Dito isso, é possível distinguir, por conseguinte, ao menos duas maneiras de entender a noção de« metafísica » em Hegel :

  • Uma maneira negativa, que diz respeito sobretudo à tradição racionalista abalada pela crítica kantiana.
  • Uma maneira « positiva », materializada no edifício filosófico do próprio Hegel, em cujo centro se encontra a prescrição de acordo com a qual a filosofia deve valer-se da razão para o fim de conhecer o absoluto, concebido quer sob a forma de incondicionado, quer sob a forma do infinito, quer sob a forma do espírito (Geist), que abarca a totalidade de tudo que é e nela se manifesta.

Após explicitar a maneira negativa de conceber a « metafísica », resta elucidar e compreender os conceitos mobilizados por Hegel na sua definição da tarefa da filosofia: razão (aquilo que deve apreender o absoluto) e absoluto (aquilo que é apreendido pela razão e que se revela como a totalidade do real. Ora, a noção de « razão » (Vernunft) pode e deve ser esclarecida a partir do seu contraste com a noção de « entendimento » (Verstand). Enquanto o entendimento é uma faculdade discursiva, e portanto opera através da conceitualização, da judicação e da demonstração, a razão, que é especulativa, tem como traço definidor a capacidade de « captar os opostos em sua unidade, ou o positivo no negativo (Ciência da Lógica). Quanto à noção de « absoluto » – que remonta principalmente ao Idealismo Alemão, em particular a Schelling –, trata-se do modo pelo qual Hegel compreende o espírito que se desdobra na marcha da história e cujo telos é a reconciliação consigo mesmo, o fim da sua alienação, a realização da sua substância (Cursos de Filosofias da História), que é a sua liberdade, o seu estar-junto-a-si-próprio.