Percepção (Wahrnehmung) na Fenomenologia do Espírito

Na obra Fenomenologia do Espírito, de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, a percepção (Wahrnehmung) é apresentada como a segunda figura do movimento da consciência, situada entre a certeza sensível (sinnliche Gewissheit) e o entendimento (Verstand). Hegel entende a percepção como um modo de conhecer em que o objeto não é acessado diretamente pelos sentidos, como pela visão e pelo tato, mas organizado pela consciência segundo propriedades e determinações gerais. Assim, a percepção marca a transição do conhecimento imediato, em que se acredita capturar o objeto tal como ele aparece, para um conhecimento em que a consciência percebe que o objeto possui múltiplas qualidades que precisam ser consideradas em conjunto. 

Da certeza sensível à percepção

Na etapa da certeza sensível, o sujeito toma o objeto como um “isto” presente no “agora”, supondo conhecer a verdade de modo direto. No entanto, ao nomear a coisa (por exemplo, “isto é uma árvore”), a consciência recorre inevitavelmente a conceitos universais, revelando que a ideia de um conhecimento totalmente imediato é ilusória. Palavras como ‘aqui’ e ‘agora’, que parecem indicar algo único e específico, acabam mostrando que se aplicam a qualquer lugar e tempo. Hegel observa que: “se quisessem dizer efetivamente este pedaço de papel que Visam - e se quisessem dizer [mesmo] - isso seria impossível, porque o isto sensível, que é 'visado', é inatingível pela linguagem, que pertence à consciência, ao universal em si” (Hegel, 1992, p. 81). Ou seja, o que parecia ser único e imediato revela-se parte de algo mais amplo, ou seja universal. Isso leva a consciência a perceber o objeto como uma unidade formada por diferentes qualidades.

A coisa (das Ding): A coisa é entendida como uma totalidade de propriedades (Eigenschaften), isto é, um conjunto de características que percebemos reunidas em um mesmo objeto. Para explicar isso com mais clareza, Hegel diz que podemos olhar para a coisa sob dois ângulos:

  1. Meio universal (Medium): a coisa funciona como um campo que reúne propriedades diversas e independentes, expressando sua universalidade.
  2. Uno excludente (Eins): a coisa é também uma unidade que nega as diferenças que a compõem.

Isso torna a coisa internamente contraditória, pois é simultaneamente a soma de suas propriedades e algo distinto delas. Essa tensão entre unidade e multiplicidade, universal e particular, constitui a estrutura dialética da coisa.

Como a consciência percebe a coisa

No capítulo “A coisa e a ilusão” (das Ding und die Täuschung), Hegel explica como a consciência tenta conhecer a verdade do objeto. A ilusão, porém, não está na coisa em si, mas na maneira como a consciência a compreende. Em vez de captar o objeto de modo puro e direto, a consciência acaba projetando sobre ele suas próprias formas de entender o mundo. A partir de conceitos, comparações e experiências anteriores que já carregamos.

  1. Unidade da coisa: A consciência tenta ver o objeto como algo uno e simples, mas ele aparece sempre com várias propriedades ao mesmo tempo. Ao se fixar a unidade, perde as diferenças, e ao olha apenas para as diferenças, perde a unidade.
  2. Separação sujeito–objeto: Para resolver isso, a consciência tenta separar o que é do sujeito e o que é da coisa. As propriedades seriam do sujeito, e a unidade, da coisa. Mas essa separação não se sustenta, porque a unidade do objeto depende justamente de suas propriedades.
  3. Superação da percepção: A consciência conclui que o objeto não é algo fixo em si, mas resultado das relações entre unidade e multiplicidade. Ao perceber isso, ela supera o nível da percepção e passa ao entendimento, onde essas relações podem ser pensadas de forma conceitual.

Referências

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do Espírito. 2. ed. Trad. Paulo Meneses, com a colaboração de Karl-Heinz Efken e José Nogueira Machado. Petrópolis: Vozes, 2002.

Em seu Dicionário Hegel, Michael Inwood remete o verbete “Percepção (Wahrnehmung)” aos termos “Intuição”, “Sensação” e “Sensório”, indicando sua ligação com os níveis iniciais da consciência empírica¹ Pag. 311.