Pretuguês em Lélia Gonzalez

PRETUGUÊS: s.m. Forma do português brasileiro, marcada pela africanização das variedades coloquiais, com influência fonética e lexical oriunda de línguas africanas — elemento central na produção intelectual da filósofa, antropóloga e ativista, Lélia González (1935–1994).

1. Origem e conceituação

O termo “pretuguês”, usado por africanos lusófonos, foi adotado por Lélia González para nomear a africanização do português falado no Brasil. A nomenclatura é um trocadilho que remete a “preto”, referência aos povos africanos escravizados em diáspora, e ao “português”, idioma imposto pelos colonizadores, apontando para uma apropriação da língua do europeu branco e para uma ressignificação que considerasse a participação negra na constituição dos idiomas do Brasil, que formalmente se distancia da população e constrange seus outros modos de falar.

A participação negra na mudança da língua é um fundamental exemplo da presença de culturas de África no Brasil e do movimento de resistência ao racismo. Trata-se de reconhecer não só as palavras de origem africana que constituem nosso vocabulário, mas também que o português oral cotidiano contém ritmos, entonações, supressões consonantais e traços lexicais trazidos pelas línguas bantu, quimbundo e outras de matriz africana. Tal variação se difundiu, sobretudo, através da ação da mulher negra escravizada – a mãe-preta – que criava os filhos dos senhores e transmitia, pela língua oral, os valores e referências das culturas africanas influenciando na constituição de um outro português, africanizado, assim como toda a cultura brasileira. A escritora chama esse processo de “resistência passiva”, que nada mais é do que a cultura negra e seus valores sendo passados para essa criança (infans), através da “mãe preta”. O pretuguês é motivo de chacota dos brancos, sem se darem conta de que eles se utilizam desse recurso no seu cotidiano. Falar e ensinar sobre o pretuguês, configura-se como uma luta política pois, além de incluir pessoas e grupos marginalizados, qualificados como inferiores por falarem “errado” – reforçando discriminações raciais e sociais – o pretuguês questiona e desafia o padrão linguístico da cultura branca e europeia, tida como única e correta, sendo essa uma maneira de resistência e reafirmação da linguística africana presente no português brasileiro.

2. Traços linguísticos característicos

  1. Consoantes modificadas ou suprimidas: troca do “L” pelo “R”;
  2. Marcadores de plural inusuais: “os menino”;
  3. Reduções de pronomes/verbos: “cê”, “tá”;
  4. Caráter tonal e rítmico.

3. Pretuguês na obra de Lélia Gonzalez

No ensaio Racismo e sexismo na cultura brasileira, Lélia Gonzalez afirma que no Brasil se fala o pretuguês (GONZALEZ, 2020, p. 90). Assim, quando se avalia a pronúncia “Framengo”, por exemplo, existe um preconceito, pois a palavra estaria em desacordo com a norma culta da língua portuguesa, porém o que acontece é uma influência de um idioma africano que não possui o L, portanto utiliza o R. Já no caso de expressões: “cê” no lugar de “você”, “tá” no lugar de “está”, e a não utilização do R no final do verbo na forma infinitiva, comumente não se percebe, mas vem de África (ibidem, p. 78). Nesse sentido, Gonzalez se debruça sobre um dos maiores fascínios nacionais: a bunda – exposta em propagandas dos mais variados tipos e difundindo mundo a fora o corpo da mulher negra como essencialmente sexualizado. Essa palavra possui origem no tronco linguístico banto, trazida pelas pessoas negras escravizadas na diáspora. Porém, Lélia nos diz que, por mais que seja desejado pelos brancos em época de carnaval, esse significante é minado pela tentativa de apagamento de sua origem de África pelo poder dominante, somente ressuscitado em época de folia. A bunda, mantida a partir da negação de sua origem linguística, em aufhebung, se preserva tanto na boca do povo quanto dos poderosos, mostrando que por mais que não saibam, todos falam pretuguês. 

Outro ensaio fundamental na obra de Gonzalez em que figura o pretuguês é A categoria político-cultural de amefricanidade, no qual a autora propõe um novo olhar sobre a construção histórico-político-sociocultural do Brasil, através da influência dos povos africanos em diáspora no país e na cumplicidade da experiência brasileira para com os outros países do continente americano. Nesse sentido, o pretuguês é um elemento chave para entender a formação do Brasil e para observar as particularidades da experiência vivida na Améfrica Ladina[1]. Dado que as marcas do pretuguês exploradas anteriormente (caráter tonal e rítmico, ausência de certas consoantes, entre outros) também se fazem presentes no espanhol caribenho, por exemplo.

Outrossim, cabe salientar a importância do neologismo de Lélia, para a construção de uma consciência efetiva – principalmente no que cerne o povo negro – reconhecendo sua ascendência africana plenamente, pois, ao utilizar o pretuguês está rompendo com a linguagem do colonizador racista, como bem sugere a autora, quando faz a colocação: “como podemos atingir uma consciência efetiva de nós mesmos enquanto descendentes de africanos se permanecemos prisioneiros, cativos de uma linguagem racista?” (GONZALEZ, 2020, p. 134).  Assim, esse reconhecimento que Gonzalez dá ao pretuguês como língua brasileira – que evidentemente se diferencia muito do português vindo de Portugal – demonstra que sua formação se dá pela influência direta dos povos de África em diáspora na língua do colonizador. A autora nos diz que as mães pretas, por exercerem função de cuidado com tanto com as crianças brancas quanto com seus próprios filhos, foram as responsáveis por colocar o pretuguês na boca do povo brasileiro, pois como marca de sua resistência, carregavam consigo traços fortes de seus antepassados para terras de além mar, separadas pelo Atlântico dor, traços estes mantidos em lugar de marginalidade.

4. Referências Bibliográficas

GONZALEZ, Lélia. “A categoria político-cultural de amefricanidade”. In: Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
LOPES, N. Dicionário banto do Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2003.
PRETUGUÊS: a africanização da língua portuguesa brasileira | O Enigma da Energia Escura. [S. l.:s. n.], 2021. 1 vídeo (6:07). Publicado pelo Canal GNT. Disponível em: https://youtu.be/v7ZC429ONME?si=2Iofw6s_8hbl6fsw. Acesso em: 3 jul. 2025.

Editores[2]: Ana Lídia Oliveira dos Santos (12751140); Bruno Guedes Ribeiro (nºusp: 10694608); Camila dos Santos Paulo (nºusp: 6840669); Eliane Liberato dos Santos (nºusp: 13644361); Fabíola Cunha (nºusp: 12751199); João Araújo de Melo Junior (nºusp: 5939333); Juan Ignácio Gomez Martinez (nºusp: 15464830); Julia Fernandes de Magalhães (nºusp:15585046); Karina Gonçalves Leonel Silva (n°usp: 12679365); Nicolly Camilo Rocha (nºusp: 15523811); Pedro Soares de Santana (nºusp: 15650719); Sidinei G. de Carvalho Júnior (nºusp: 15488232); Simon Fan (nºusp: 7179444);  Vitória Augusta Barreto Coelho (nºusp: 11286960); Vitória Dellevedove Moreira (nºusp:12729777).


[1] Troca efetiva da categorização de América Latina, adicionando o “F” em “América” para assim representar melhor uma identidade  construída pela cultura africana. Além da troca intencional do “T” pelo “D” em “Latina” referindo-se ao “Ladino”, adjetivo histórico dado ao negro escravizado que já estava familiarizado com a cultura e a língua portuguesa e que trabalhava dentro da casa-grande. .   

[2]  Os nomes dos editores estão organizados apenas por ordem alfabética, de modo que sua disposição não expressa maior ou menor grau de participação na elaboração do projeto bem como não registra a ordem de edições do documento.