Este projeto faz parte das atividades de extensão realizada pelos alunos da disciplina da disciplina FLF0511 Filosofia Medieval IV ministrada pelo professor Lorenzo Mammì no segundo semestre de 2025. A atividade consistiu na organização de um índice temático e súmula dos livros da obra Confissões, de Santo Agostinho.

LIVRO XII, Confissões. Agostinho de Hipona

LIVRO XII

I. Introdução:

I, 1: os discursos da interpretação são mais extensos do que o texto sagrado que interpretam.

II. Interpretação de Gênesis 1, 1: “Deus criou o céu e a terra”: o céu do céu

II, 2: O céu como substância espiritual, a terra como totalidade do mundo corporal.

III. Interpretação de Gênesis 1, 2: “A terra era invisível e desordenada e as trevas estavam sobre o abismo”. A matéria informe.

III, 3: Terra invisível como matéria informe; trevas como falta de forma (ou aparência).

IV, 4: Justificativa da interpretação: terra é uma imagem do informe por ser o elemento menos formoso. 

V, 5: A matéria informe não pode ser nem inteligível (porque é matéria), nem sensível (porque, não tendo forma, não é objeto dos sentidos).

VI, 6: A matéria é o que permanece do ente na transição de uma forma a outra. Matéria como “quase nada” ou “ser não ser”.

VII, 7: A matéria é criada.

VIII, 8: O mundo corporal foi feito a partir da matéria informe, que foi criada a partir do nada.

IX, 9: A criatura intelectual (céu do céu) e a matéria informe (terra invisível e desordenada) são citados antes da contagem dos dias porque estão fora do tempo: o primeiro, por participar da eternidade divina; a segunda porque, onde ainda não há forma, também não há mutabilidade, portanto não há movimento.

IV. Argumentação a favor da interpretação de Gênesis 1, 1-2:

X, 10: Invocação à Verdade.

XI: Premissas verdadeiras:

11: Deus é o único ser eterno e todos os entes que não são Deus foram criados por ele.

12-13: a criatura espiritual que permanece junto à Deus não está sujeita à mutabilidade, embora não seja coeterna com Deus.

14: a informidade em si não está sujeita a sucessão temporal.

XII, 15-XIII, 16: Logo, há duas criaturas fora do tempo: a criatura espiritual (ou céu intelectual) que permanece junto a Deus e a matéria informe.

V. Interpretações alternativas:

XIV, 17: Condenação dos que rejeitam o Antigo Testamento; necessidade de discutir com aqueles que, mesmo aceitando-o, propõem outras interpretações.

XV, 18: Premissas comuns a todos os interlocutores.

1. Deus é eterno e suas vontade e ciência não mudam.

19-22: Outras premissas comuns:

1. Toda matéria formada ou formável descende do Ser supremo.

2. Há uma criatura espiritual que permanece fora do tempo na contemplação de Deus, embora seja distinta dele.

XVI, 23. Aqueles que admitem tais premissas são os com que é legítimo dialogar.

XVII, 24. Primeira interpretação alternativa: céu e terra significa a totalidade do mundo visível, detalhada em seguida na enumeração dos dias; terra invisível e desordenada é a matéria informe.

25. Segunda interpretação alternativa: céu e terra significa a matéria informe, a partir da qual o mundo visível foi feito. Terra invisível e desordenada seria a descrição de tal matéria.

26. Terceira interpretação alternativa: céu e terra se refere à matéria informe tanto do mundo invisível, quanto do visível.

XVIII, 27: O critério de legitimidade das interpretações é a caridade, que atribui o melhor sentido possível ao texto. O sentido atribuído ao texto pode não corresponder à intenção do autor, contanto que esse sentido seja verdadeiro.

XIX, 28. Lista de verdades que podem ser aproveitadas na interpretação do texto.

XX, 29. Interpretações possíveis de In princípio Deus fez o céu e a terra:

1. No Verbo, Deus fez a criatura inteligível e sensível, ou espiritual e corporal.

2. No Verbo, Deus fez o mundo corporal.

3. No Verbo, Deus fez a matéria informe da criatura espiritual e corporal.

4. No Verbo, Deus fez a matéria informe da criatura corporal.

5. No começo do tempo, Deus fez a matéria informe da criatura corporal.

XXI, 30. Interpretações possíveis de: Mas a terra era invisível e desordenada e as trevas estavam sobre o abismo:

1. A natureza corporal (terra do primeiro versículo) ainda era informe.

2. O mundo corporal (céu e terra do primeiro versículo) ainda era informe.

3. As naturezas espiritual e corporal ainda eram informes.

4. A matéria informe (terra do segundo versículo) é anterior à criatura espiritual e corporal (céu e terra citados por antecipação no primeiro versículo).

5. A matéria informe (terra do segundo versículo) é anterior apenas à criatura corporal (céu e terra citados por antecipação no primeiro versículo).

XXII, 31. Objeções possíveis às interpretações 4 e 5 do segundo versículo e resposta possível a tais objeções.

XXIII, 32. Duas divergências possíveis nas interpretações: quando à verdade das coisas e quanto à interpretação do autor.

XXIV, 33-XXV, 34. A única divergência possível é quanto à verdade das coisas, porque a intenção do autor é incognoscível.

XXV, 35. Reafirmação da caridade como critério interpretativo.

XXVI, 36. Intenção possível de um indivíduo sublime como Moisés: a pluralidade dos sentidos.

XXVII, 37-XXVIII, 38. Metáfora da fonte e dos rios: da mesma fonte brotam diferentes percursos interpretativos, dependendo das condições históricas e intelectuais do leitor. 

39. Pluralidade de sentidos:

1. No Princípio pode significar tanto a Sabedoria divina, quanto o início do tempo criado.

2. Se No Princípio significa a Sabedoria, céu e terra pode significar:

a. A matéria informe do céu e da terra.

b. O céu e a terra já formados.

c. Uma matéria espiritual já formada e uma matéria corporal informe.

3. Se céu e terra significa a matéria informe (interpretação a), pode se referir tanto à matéria das criaturas espiritual e corporal, quanto apenas à corporal.

4. Se céu e terra significa criaturas já formadas (interpretação b) elas podem ser tanto a espiritual e a corporal, quanto apenas a corporal.

XXIX, 40. Se No princípio significa o início dos tempos, céu e terra só pode significar a matéria informe das criaturas espiritual e material. Os quatro tipos de anterioridade (eternidade, tempo, valor e origem).

XXX, 41-XXXI, 42. Todas essas interpretações são úteis, porque são verdadeiras, embora nenhuma delas possa ser atribuída com certeza a Moisés. Mas o texto ideal é aquele que contém o maior número de verdades possíveis, inclusive aquelas que ainda não foram encontradas nele.

XXXII, 43. Por ser texto inspirado, a Bíblia é esse texto que contém todas as verdades, as que já descobrimos e a que ainda não foram reveladas.